POR João Figueiredo
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Pelo título do nosso texto, o leitor pode ser levado a entender inicialmente que trataremos do jornalismo que defende os interesses das elites da nossa sociedade. Na verdade, a nossa pretensão é falar da mentalidade elitista de alguns profissionais da notícia. Mas, se por um lado os dois temas parecem distintos, de outro não há como negar a convergência entre eles: quem defende os interesses das elites é quem tem mentalidade elitista, ainda que necessariamente não pertença a essas elites.
O que ousamos chamar aqui de mentalidade elitista refere-se especificamente à defesa da exigência do diploma para jornalistas. A celeuma está de volta. No último dia 30 de novembro, 65 senadores contra sete, aprovaram, em primeiro turno, a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que torna obrigatório o diploma de nível de 3º grau em jornalismo para o exercício da profissão. A decisão massageou, com dedos de pelúcia, o ego de uma multidão de jornalistas que se sente incomodada com a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de derrubar a exigência do diploma para o exercício da profissão desde junho de 2009.
Herdamos dos nossos colonizadores a mentalidade de que existem pessoas que são superiores a outras e tentamos mostrar isto no nosso dia-a-dia. Nesse mister, costumamos olhar o mundo a partir de um pedestal imaginário: nossa religião é sempre a melhor do que a do outro, nossa família é a melhor, nossa cidade é a melhor, nossa profissão é a melhor... Algumas profissões se tornaram, para os seus oficiais, algo que se aproxima de castas, inclusive com o uso recorrente de linguagens técnicas que se assemelham a dialetos próprios...
Quem defende a exigência do diploma de habilitação em jornalismo para o exercício da profissão é, obviamente, quem possui esse diploma (e aí estariam envolvidas questões como status quo, competição pelo espaço no mercado profissional, etc) ou, de outro lado, quem tem algum vínculo com as instituições que promovem os cursos inerentes a esse diploma - neste caso o interesse é, sobretudo, mercadológico e está imiscuído na proposta do capitalismo (leia-se individualismo).
Os defensores do diploma ainda tentam comparar a profissão de jornalismo com outras que, por suas especificidades, exigem uma formação básica específica, como no caso da medicina, odontologia, engenharia, dentre outras. Ora, a profissão que mais se aproxima da profissão de jornalismo é a de escritor e não há nenhuma exigência de diploma de “literato” ou de algo parecido para se ser considerado escritor: o que se exige dele é competência para pesquisar e escrever com qualidade o seu trabalho final.
Basta lembrar que há países em que o jornalista é formado em curso técnico de nível equivalente ao nosso ensino médio ou pós-médio e nem por isso têm jornalismo de qualidade inferior; é óbvio que um profissional formado nesses cursos depende de aprimoramento após a formação para se tornar um bom profissional.
Em contrapartida, a formação oferecida por cursos de graduação no Brasil, em geral, é uma formação elementar (exceto para os cursos de horário integral). Ou seja, o profissional graduado, via de regra, após a formação também depende de aprimoramento (através de cursos de pós-graduação e/ou da prática na função) para que se torne um bom profissional. Logo, a simples posse de um diploma de graduação não significa, necessariamente, qualificação profissional.
Ademais, é preciso levar em conta que a crise do ensino brasileiro não é apenas institucional, ela é também cultural: há um desestímulo generalizado pelo ato de estudar; são inúmeros os casos de estudantes que embromam, usam de vários artifícios que lhes permitem concluir uma graduação e, consequentemente, serem diplomados sem absorverem o mínimo necessário do conteúdo da grade curricular do curso.
Ao que tudo indica, a força do lobismo que vem cercando a votação do projeto deverá levá-lo à aprovação em segundo turno no Senado e nas votações na Câmara Federal. A volta da exigência do diploma será fartamente comemorada como uma conquista, sem que, no entanto, os entusiastas dessa exigência se deem conta do quanto da mentalidade herdada do período colonial nela está presente.
João Figueiredo é sociólogo e jornalista
ESTE BLOG É A FAVOR DO DIPLOMA E DE FORMAÇÃO ESPECÍFICA NA ÁREA PARA O EXERCÍCIO DA PROFISSÃO DE JORNALISMO; TRANSFORMAR A INFORMAÇÃO EM NOTÍCIA REQUER HABILIDADES QUE SÃO SIM ADQUIRIDAS NOS QUATRO ANOS DE CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, HABILITAÇÃO EM JORNALISMO, ASSIM COMO O CURSO DE LETRAS APERFEIÇOA O ESCRITOR QUE QUER MELHORAR OS SEUS TEXTOS; NÃO É ELITISMO PENSAR QUE FORMAÇÃO AJUDA O AVANÇO DA HUMANIDADE, APESAR DE QUE A EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA ESTÁ EM CRISE; COMO ENSINA UM ESCRITOR PORTUGUÊS, SEJAMOS DIALÉTICOS, COMPANHEIROS!!!
"Vai longe o tempo em que éramos algo como ‘intelectuais da notícia’. Este tempo foi inelutavelmente enterrado pelos avanços tecnológicos que determinaram um nível de divisão de trabalho que fez de nós uma categoria de trabalhadores da notícia. Isto é o que somos. Trabalhadores." [Trecho da Tese da Oposição Sindical do SJPMG defendida no Congresso Estadual de Jornalistas realizado de 25 a 27 de junho de 2010 em Araxá (MG)]
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